Sylvana Correventos:Fim da Noite
Dave Kosak

Coroa de Gelo

Sylvana Correventos flutua num mar de alívio, e todas as sensações físicas são substituídas por emoção pura. Ela consegue tocar o êxtase, ver o júbilo, ouvir a paz. Aquilo era a vida após a morte, seu destino. O mar eterno onde Sylvana se viu após perecer defendendo Luaprata. Ela pertence àquele lugar. Com cada recordação, a lembrança deste lugar se enfraquece. O som se distancia, o calor arrefece. A visão empalidece como um sonho quase esquecido. Mas com uma clareza terrível, a lembrança sempre termina do mesmo jeito: o espírito de Sylvana é arrancado de lá. A dor é tão intensa que rasga-lhe para sempre a alma. O rosto sorridente de Arthas Menethil, com seu sorriso enviesado e olhos sem vida, a encara maliciosamente. Arthas a puxa de volta ao mundo. Desonra-a. O riso dele, aquele riso vazio, a lembrança disso faz com que ela se arrepie!

– Seu filho da mãe! – Sylvana berra, chutando para o lado um pedaço quebrado da armadura do Lich Rei. Sua voz, vazia e apavorante, falhou sob a força do ódio. O som ecoou por entre os picos da Coroa de Gelo, rufando pelos vales como as brumas pesadas que para sempre assombram aquele lugar terrível.

Ela se aventurou até ali, sozinha, ao antigo centro do poder dele. Chegou ao alto da Cidadela da Coroa de Gelo, onde um trono congelado avulta em um platô de neve branca. É claro que aquele garotinho egocêntrico que ela conheceu se colocaria aqui, sentado no topo do mundo. Mas onde estava ele agora? Destroçado. Sylvana não sentia mais a malevolência dele incomodando-a. A armadura quebrada jaz despedaçada diante do trono, rodeada de pedaços enegrecidos de sangue congelado, os restos daqueles que o haviam derrotado finalmente.

Sylvana lamentou não ter presenciado a destruição dele. Apanhou uma manopla quebrada, a armadura da mão que um dia empunhou a Gélido Lamento. Ele está finalmente morto. Mas por que ela se sentia tão vazia por dentro? Por que ela ainda pulsava de raiva? Arremessou a manopla para longe e a observou desaparecer nas brumas turvas.

Ela não estava só. Nove espíritos luzentes cercavam o pináculo, os rostos mascarados virados para ela, as formas efêmeras suspensas no ar por asas graciosas e incorpóreas. Eram as Val'kyren, antigas donzelas guerreiras que um dia foram escravas da vontade de Arthas. Por que elas permaneciam ali? Sylvana não sabia, tampouco se importava. As criaturas não a atrapalhavam, permaneciam absolutamente mudas e imóveis, mesmo quando ela gritava e se enraivecia. Será que elas a observavam? A julgavam? Sylvana as ignorou e caminhou pela neve até o trono de Arthas.

Outra pessoa estava sentada no trono.

Inicialmente, Sylvana tratar-se do cadáver de Arthas, plantado zombeteiramente naquele lugar de honra e lacrado num bloco de gelo, mas a silhueta era completamente diferente. Ela se aproximou do trono e passou a mão pela superfície do gelo, observando a figura lá dentro. Humano, sim. Reconheceu o contorno da armadura da Aliança. Mas o cadáver estava bastante queimado, aberto como uma peça de carne assada. Ele usava a coroa de Arthas, e aqueles olhos, aquela centelha de consciência...

"Eles o substituíram!". Um novo Lich Rei ocupava o trono!

Mais uma vez, Sylvana gritou, a surpresa transformando-se em raiva explosiva. Golpeou o gelo com a palma da mão, depois com o punho. O gelo rachou. O rosto imóvel lá dentro se abriu atrás de uma teia de fraturas. Os uivos dela morreram, desaparecendo de forma vazia nas brumas que envolviam o monte. "Eles o substituíram. Isso significa que sempre haverá um Lich Rei? Idiotas." Acreditavam ingenuamente que aquele rei fantoche não começaria a corromper o mundo para atender aos próprios caprichos. Ou pior: tornar-se uma arma cega para algo ainda mais terrível.

Era um golpe cruel. Ela havia esperado chegar aqui triunfante, e não encontrar outra derrota. A vitória era vazia. Mas Sylvana se afastou do trono, se aprumou e aceitou que o ciclo iria continuar. Arthas estava morto. De que importava se outro cadáver ocupava o trono? Sylvana Correventos havia se vingado. A visão que motivara a ela e seu povo durante anos tinha finalmente se realizado. E nem uma única fibra de seu corpo ressequido e revivido se importava para onde o mundo iria daqui em diante.

Agora, estava tudo acabado. Uma parte dela estava surpresa por ainda estar de pé, mesmo sem a presença constante dele invadindo-lhe a mente. Afastou-se do trono e lentamente se virou para avaliar aquele mundo cinza e frio à volta. Seus pensamentos voltaram-se para aquele lugar arrebatador, o vislumbre vago do que a aguardava. O lar. Estava na hora.

Lentamente, Sylvana caminhou até a beira serrilhada da plataforma de gelo. Lá embaixo, encoberta pelas nuvens, estava a floresta de aguilhões de saronita que ela havia visto mais cedo. A queda não seria o bastante para matá-la: sua carne revivida era praticamente indestrutível. Mas os aguilhões, o sangue endurecido de um Deus Antigo, além de dilacerarem o corpo, também destruiriam sua alma. Ela ansiava por isso. Um retorno à paz. O trabalho que ela havia iniciado nas florestas de Luaprata estava finalmente concluído com a morte de Arthas.

Sylvana tirou o arco do ombro e o jogou de lado. A arma ressoou ao chocar-se contra o gelo. Em seguida, retirou a aljava, derramando flechas que cascatearam pela lateral da Cidadela da Coroa de Gelo e desapareceram uma a uma na neblina. A aljava vazia caiu silenciosamente no chão junto aos pés da patrulheira sombria.

O manto escuro e esfarrapado, agora solto aos ventos pela ausência do armamento, começou a chicotear o pescoço de Sylvana. Ela não sentia frio, apenas uma dor entorpecida. Em breve, sentiria nada. Já antecipava o espírito chegando a um refúgio de tranquilidade pela primeira vez em quase uma década. Sylvana deslocou o peso em direção à beira do abismo e fechou os olhos.

Como se fossem uma, as Val'kyren se viraram na direção de Sylvana em silêncio.

Guilnéas

– Em fren... – gritou o marechal, cujas ordens foram interrompidas por uma bala de mosquete que estraçalhou-lhe o maxilar. A muralha à frente dele estava em pedaços, mas ainda era abrigo para atiradores, escondidos pela chuva. O temporal despencava do céu em torrentes, ensopando tanto os atacantes quanto os defensores. O marechal caiu no lamaçal, despencando pela montanha de escombros como se fosse um saco de carvão. Assim como as carroças carniceiras e os demolidores atolados de sua artilharia, as tropas dele não avançavam. Nenhum homem normal teria sobrevivido ao disparo, mas como o marechal já estava morto, ele rapidamente se arrastou para fora da lama, cuspindo linfa e sangue coagulado dos restos do rosto.

Ao norte, do outro lado de um campo cultivado e de uma leve cortina de chuva, Garrosh Grito Infernal tentava entender o que estava acontecendo na linha de frente. Ele conseguia vislumbrar a silhueta cinza da grande muralha guilneana, repleta de fendas diagonais provocadas pelo Cataclismo. Se seus Kor'kron estivessem na linha de frente, já a teriam atravessado. Garrosh grunhiu ao ver um grupo de batedores Renegados se arrastarem pela lama, voltando esfarrapados e derrotados. Na vitória, os Renegados já pareciam cadáveres; na derrota, a aparência deles era ainda pior.

– Seus batedores são inúteis. Eu os enviei para acossar as defesas da muralha, e eles rastejam de volta como cães surrados – bufou Garrosh, sem ao menos olhar o interlocutor. O grande orc de pele marrom estava vestido com seu uniforme de batalha mais ameaçador, e os braços tatuados e cheios de veias pareciam explodir debaixo do guarda-ombros cheio de garras. Embora estivesse bem em frente da própria tenda, o guerreiro se recusava a entrar para se proteger da chuva, que gotejava sobre a carranca e o queixo enegrecido.

Ao lado do grande orc e abrigado sob a tenda, Lindolfo parecia frágil. O rosto esburacado do mestre-boticário se retraiu sob a cabeleira cinza e desgrenhada enquanto ele tentava formular uma resposta que não lhe renderia mais uma sucessão de impropérios do chefe guerreiro: – Eu lhe garanto que eles estão ferindo tanto quanto são feridos – disse em tom comedido, com a voz áspera e fraca. – É quase certo que as defesas guilneanas estejam desorganizadas.

– Então, por que seus batedores estão mancando de volta, ao invés de avançarem? – perguntou o Chefe Guerreiro, chutando um barril para o lado. Logo atrás, as tropas de Garrosh aguentavam a chuva: quatro companhias de orcs e taurens, soldados de elite escolhidos a dedo, com o apoio dos cinco batalhões dos mais durões de Orgrimmar. As forças se estendiam pelos campos de Pinhaprata, um mar de rostos verdes e marrons contra uma cortina de fundo de estandartes vermelhos. – E onde estão os regimentos prometidos por Lordaeron? Eles precisam invadir pela abertura. Estamos perdendo tempo.

Lindolfo sabia bem que não deveria discutir táticas com o teimoso chefe guerreiro, mas estava desesperado com a aproximação da hora do ataque. Passou a língua roxa pelos lábios pálidos e tentou responder casualmente, esperando trazer à tona a razão: – Sem dúvida, a chuva os atrasou, mas já devem estar chegando. Eles são... com certeza... os melhores de Lordaeron. O coração da nossa infantaria e a espinha dorsal de todo o nosso esforço...

Garrosh alisou o lado do rosto com os nós dos dedos. Olhou para o terreno e mentalmente posicionou a infantaria e cavalaria que chegariam, enquanto Lindolfo falava.

– Mas você não pode simplesmente mandá-los para a abertura central da muralha – ponderou Lindolfo. – É um... um gargalo. O lugar está fortificado e é muito vigiado. Nem mesmo tropas fortemente armadas a cavalo conseguiriam manobrar ali: os homens seriam chacinados pelos disparos dos mosqueteiros escondidos nos escombros. Certamente, você entende...

– É claro que entendo! – interrompeu Garrosh. – A porta foi arrombada; agora, é preciso derrubá-la. A sua espécie serve para isso. – Naquele momento, o Chefe Guerreiro fitava diretamente o mestre-boticário, com os olhos fixos na luz amarelada e pálida que preenchia as órbitas oculares do morto-vivo. – Vocês já são cadáveres, quase impossíveis de matar. Vão invadir em massa a abertura e abrir caminho para o resto da Horda passar, pronta para matar. Mesmo que tenhamos de passar sobre uma ponte de corpos despedaçados. É assim que as fortificações são rompidas. Que as guerras são vencidas.

O mestre-boticário levantou dois dedos ossudos e argumentou: – Mas e se usássemos apenas um... apenas um toque da peste. Só para abrir um espaço. Nem mesmo o bastante para fazer algum... Apenas um pouquinho! Mais para causar medo e pânico do que...

A mão de Garrosh rasgou o céu, lançando um jato de água da chuva na tenda ao atingir em cheio a face de Lindolfo. O mestre-boticário cambaleou como se tivesse levado um coice, mas, contando apenas com a força de vontade, conseguiu continuar de pé após o golpe.

– Se está sugerindo usar mesmo que uma gota daquela imundície que você tem escondida, eu taco fogo em você e naquela sua cidade-esgoto! – Garrosh grunhiu e virou-se para a batalha.

Humilhado, o mestre-boticário Lindolfo murmurou um quase inaudível "sim, chefe guerreiro" por entre dentes. Mas, secretamente, alimentou a raiva. "Onde estará a Dama Sombria, Sylvana?"

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Lindolfo se perguntou, voltando os olhos vazados em direção ao céu cinzento. "Por que ela não está aqui para se opor a essa fera?"

Coroa de Gelo

Sylvana titubeou na beirada do pico da Coroa de Gelo, ainda com os olhos fechados. Ergueu os braços. Embora o vento fosse de um frio cortante, só sentiu a mais entorpecida das dores.

Percebeu uma presença próxima e abriu os olhos. As Val'kyren haviam se aproximado dela, perto o suficiente para que conseguisse ver as armas cintilando contra as coxas fantasmagóricas. O que elas queriam?

Sem nenhum aviso, uma visão preencheu sua mente. Uma lembrança. Ela estava num quarto quente, banhado pelo sol. Feixes dourados de luz derramavam-se pela janela, iluminando partículas de pó e projetando desenhos no chão. Era o quarto dela. Há uma eternidade. Ela ainda não havia completado vinte primaveras, mas mesmo assim a jovem Sylvana era a caçadora mais promissora da família. Calçou as botas de couro que iam até a coxa, cuidadosamente medindo os cadarços e amarrando-os com esmero. Ajustou o bordado com desenhos de folhas, depois saltou da cama para admirar seu reflexo no espelho. O cabelo louro caía até a cintura como água, completamente translúcido sob a luz do sol. Olhou alegremente para o espelho, brincando com o cabelo até ele cair atrás de suas orelhas delgadas da maneira perfeita. Não bastava ser a melhor caçadora da família. Ela precisava tirar o fôlego de todos ao sair. Era tão vaidosa!

Essa lembrança estranha e longínqua retirou Sylvana da beira do abismo. O que havia motivado a recordação? Aquela vida estava perdida para sempre.

Outra lembrança inundou-lhe os sentidos. Desta vez, ela estava agachada atrás de um afloramento de pedras na Floresta do Canto Eterno. A folhagem do outono farfalhou sobre Sylvana, mascarando o som dos passos do companheiro enquanto ele corria para se esconder ao lado dela. – São tantos! – ele gritou, mas se calou quando ela levantou o dedo, e continuou quase num sussurro. – Nós só temos duas dúzias de patrulheiros lá. Eles não conseguirão sobreviver àquilo!

Sylvana não desviou o olhar da massa escura de cadáveres cambaleantes que se moviam com dificuldade para o rio. Era o auge da Terceira Guerra, a poucas horas da tomada de Luaprata pelo exército de Arthas. – Os patrulheiros só precisam retardar o exército enquanto fortificamos a defesa da Nascente do Sol – ela respondeu em um tom comedido.

– Eles vão morrer!

– São como flechas na aljava. Precisam ser usados para que possamos vencer – afirmou Sylvana.

"Ela era impetuosa. Vazia? Não, uma lutadora. Ela tinha o coração de uma guerreira."

Tão repentina quanto a última, uma terceira lembrança surgiu. – Legítimos herdeiros de Lordaeron! – Sylvana bradou, levantando o arco bem alto. Seu antebraço, ainda esbelto e musculoso, tinha agora um tom cinza azulado. Morto. A cena agora era muito diferente. Esta visão tinha o brilho frio de uma lembrança vivida após a morte. Diante dela havia uma massa de cadáveres grotescos, com armaduras em pedaços, corpos fragmentados, fedor inimaginável. Aqueles olhares desesperados e melancólicos subitamente a fizeram lembrar de crianças. Eles a enojavam, mas a carência deles a fortalecia. – O Lich Rei hesita. A determinação de vocês lhes pertence. Vocês serão párias na própria terra? Ou aceitarão a crueldade que o destino nos reservou e retomarão nosso lugar neste mundo?

As perguntas dela foram recebidas com murmúrios, que logo se tornaram uma aclamação quase desesperada. Punhos esqueléticos se ergueram em direção ao céu. Aquelas pobres pessoas – camponeses, fazendeiros, sacerdotes, guerreiros, lordes e nobres – elas ainda não compreendiam realmente o que lhes acontecera. Mas alguém, qualquer um, garantir a eles que pertenciam a algum lugar era eletrizante. – Nós somos abandonados. Nós somos... renegados. Mas quando o sol raiar amanhã, a capital será nossa – declarou. E, então, todos urraram.

– Mas e os humanos? – um jovem alquimista perguntou quando o barulho diminuiu. Sylvana o reconheceu da luta da noite anterior. Uma inteligência fria brilhou da órbita ocular daquele morto-vivo. . Seu nome era Lindolfo. Ele já havia aceitado a própria condição, e se referia aos humanos como se fossem outra raça. Sylvana então percebeu que ele lhe seria útil.

– Os humanos servirão ao propósito deles – ela respondeu, já planejando. – Acreditam que eles estão liberando a cidade. Deixem que lutem a nosso favor e se consumam em nosso benefício. Eles são... – Sylvana topou com uma analogia que já havia usado – flechas na nossa aljava.

A massa de mortos-vivos bateu palmas e tossiu e engasgou alegremente em aprovação. Sylvana observou a multidão friamente. "E vocês também são", ela pensou consigo mesma, "flechas que eu vou apontar para o coração de Arthas".

"Ainda o coração de uma guerreira? Ela tinha se tornado fria. Não, era a mesma. Tanto em morte quanto em vida."

Sylvana balançou a cabeça, clareando os pensamentos. As lembranças eram dela, mas não era ela que as estava recordando. As lembranças estavam sendo tiradas dela. Puxadas pelas Val'kyren. Os espíritos mudos pairavam em torno, observando-a em silêncio. "Elas estão me sondando!", Sylvana deu-se conta, "me julgando!"

A guerreira inspirou ar gelado e seus olhos ganharam vida abruptamente. – Eu não serei julgada! – gritou, dando as costas para o precipício para encarar suas acusadoras. – Nem por vocês. Nem por ninguém!

A fúria brotou dentro dela. Será que o lamento da banshee funcionaria contra essas... coisas? Mas ela não precisava lutar. Estava farta de tudo. – Para trás! E fiquem fora da minha cabeça! – ordenou.

Sylvana deu um passo para trás, o vento chicoteando o cabelo e agitando o manto puído. As lembranças de quem havia sido e no que tinha se tornado formaram-lhe um nó no estômago, e agora ela iria desfazê-lo. Não mais seria a líder vingativa de uma raça mestiça de cadáveres pútridos. O trabalho dela estava terminado, e sua recompensa tardia a esperava. Ansiando por aquele êxtase de esquecimento, deixou-se cair de costas do alto da Cidadela da Coroa de Gelo. O vento se precipitou por ela, num pranto crescente. O pináculo e as silenciosas Val'kyren no topo desapareceram...

O corpo se despedaçou contra as pedras de saronita de forma esmagadoramente definitiva.

Guilnéas

Como num sonho, o cerne do exército de mortos-vivos de Lordaeron se lançou adiante. Ordens gritadas soavam estranhamente abafadas. A cavalaria pesada precipitou-se em massa através da abertura na muralha, cascos esqueléticos equilibrando-se precariamente sobre os destroços. Os Renegados lutavam para se espremer por uma fenda que mal comportaria quatro cavaleiros por vez.

A artilharia dos defensores abriu fogo, numa saraivada de estampidos secos. Onde os projéteis aterrissavam, soldados e cavalos explodiam em pó e sangue podre. Os mosquetes disparavam como o rufar de tambores, e fileira após fileira tombava. Mas aqueles veteranos haviam sobrevivido aos horrores da Coroa de Gelo e avançavam sem hesitar sobre os defensores, como num maremoto de pele e ossos. A segunda leva avançou, lançando ganchos sobre a muralha, tentando vencer o óleo fervente que derramava do alto. Subitamente, o front foi tomado por chamas. Ainda assim, a artilharia cuspia fogo; ainda assim, os Renegados atacavam.

Alguns conseguiam chegar ao alto da muralha, para logo serem destruídos. Os defensores não eram humanos, mas criaturas lupinas que perambulavam pela Pinhaprata e foram organizadas em uma força de defesa. Quando mosquetes e espadas falhavam, garras e dentes arrasavam o exército morto-vivo.

Os Renegados investiram mais uma vez. O sangue nas armas escorria com a água da chuva. Eram apenas silhuetas cinza na névoa, e os gritos tornavam-se débeis ecos conforme os soldados eram assassinados. Mas agora até mesmo os defensores hesitavam. Já haviam matado tantos, como poderia haver mais?

A primeira onda de orcs surpreendeu os guilneanos. As tropas da Horda marcharam sobre um tapete de cadáveres com a sede de vitória presa nos olhos e nas gargantas. Tudo ficou em silêncio, e então acabou.

O Baluarte continuava no lugar, as fortificações incompletas que percorriam a fronteira entre Lordaeron e o território que ficara conhecido como Terras Pestilentas. O mestre-boticário Lindolfo estava ali, sem o braço esquerdo e com um corte profundo no rosto. Tentou falar com seu povo, mas não obteve resposta. Estava orquestrando uma última defesa improvisada no Baluarte, mas não tinha com o que trabalhar. O coração do exército renegado havia sido sacrificado em Guilnéas.

Os poucos que restaram depararam-se com uma tropa de humanos e anões que marchava para o oeste, após vitórias em Andorhal. No Baluarte, sobravam poucas esperanças entre os sobreviventes. As demais tropas da Horda haviam desaparecido.

"Isso não é real", Sylvana deu-se conta diante dos sombrios acontecimentos que se desenrolavam. Ela estava morta, podia senti-lo, mas seu espírito estava preso no limbo. "O que é isso?"

A última cena de que lembrava era o momento da morte. E essas visões eram como memórias de situações que não haviam acontecido. De onde vinha isso? Onde ela estava?

A capital foi cercada subitamente. O rei Wrynn postou-se sob os escombros incendiados da torre de zepelins e desenhou um mapa da Cidade Baixa para os generais. Ele já havia tomado a cidade de assalto antes e sentia-se confiante da vitória.

Por entre as muralhas da cidade, fogueiras rugiam. Sylvana ferveu de ódio, "a Aliança já está queimando os cadáveres". Mas não. A banshee tentou entender aquela visão confusa. "Os Renegados que sobreviveram preferiram se lançar ao fogo", atinou Sylvana, "a encarar os executores".

– Isso não é real! – Sylvana proclamou, e a voz lhe soou na cabeça como quando era viva. Seria o povo dela tão fraco assim? Não, não! Garrosh havia enviado à morte a elite das tropas da banshee em campanhas insensatas. A liderança dos Renegados havia sido eliminada. Era isso que as visões mostravam.

As brumas se fecharam por completo, tornando o futuro indistinto. Sylvana já não conseguia sentir o corpo. Flutuava em algum tipo de limbo. Deu-se conta de que conseguia se enxergar e levantou as mãos, admirada. A pele havia voltado a ser de um rosa dourado, firme e luminosa como havia sido em vida. Mas ela não estava sozinha ali.

De repente, percebeu que estava cercada. Nove guerreiras flutuavam num círculo em volta de Sylvana, e a beleza delas excedia até mesmo a dela. As Val'kyren preservavam a aparência de quando vivas. Algumas ostentavam cabelos negros como a noite que emolduravam rostos bronzeados e olhos azuis como as safiras. Outras tinham cabeleiras louras de tom pálido e brilhante como o sol refletindo na neve. Os rostos eram suaves, mas os queixos eram severos. Os braços eram aveludados e musculosos; as coxas, grossas e fortes. Cada uma empunhava uma arma diferente: lanças, alabardas, grandes montantes de duas mãos que se estendiam da cabeça aos pés formando uma faixa brilhante de aço polido. Cada uma delas foi a melhor guerreira da própria geração.

"São iguais a mim", Sylvana percebeu, "vaidosas, vitoriosas e orgulhosas".

– Sim, nós somos. – A Val'kyr loura que empunhava a montante respondeu como se Sylvana tivesse falado alto. A voz da criatura era melodiosa e firme. – Eu sou Annhylde, a Invocadora. Essas são minhas irmãs, damas guerreiras, e somos as nove que restaram. Nós servíamos aos guerreiros do norte em vida, e escolhemos continuar leais na morte.

– Servir o Lich Rei.

– Você escolheu servir ao Lich Rei? – irritou-se Annhylde.

– O que é isso? O que são essas visões? – Sylvana exigiu saber.

– Visões do futuro – Annhylde explicou. – Todas as vidas deixam um rastro. Este é o seu.

– Não é preciso uma bola de cristal para ver o Grito Infernal desperdiçando os recursos da Horda, dilapidando-os na ânsia por conquistas. – Sylvana sentiu a antiga raiva insuflando-se novamente, mas não sentia o corpo reagir. Ela não sentia nada. – Para onde vocês me levaram? Eu deveria estar morta.

– Você está – respondeu outra Val'kyr, de cabelos cor de carvão.

– Eu sei o que é a morte – protestou Sylvana. – Vocês estão me mantendo no limbo. Por quê?

Annhylde manteve-se paciente e respondeu com voz tranquilizadora e comedida: – Para mostrar as consequências da sua morte e oferecer-lhe uma escolha...

– Eu fiz a minha escolha – interrompeu Sylvana.

– O seu povo perecerá! – exclamou a Val'kyr de cabelos escuros. Ela claramente havia sido em vida a mais jovem das damas guerreiras, e agora era a mais impaciente na morte-viva.

Sylvana pensou no próprio povo. Eles haviam percorrido um longo caminho desde o bando de cadáveres confusos e desamparados que se amontoava entre as ruínas da capital de Lordaeron. Os Renegados agora eram uma verdadeira nação, uma massa de corpos sem vida, fétida e podre, exímia nas artes arcanas e nas artes da guerra, e livre de quaisquer amarras morais. Eles foram treinados para ser a arma perfeita. A arma de Sylvana. E eles haviam desferido o golpe final para o qual foram construídos. E Sylvana não se importava nem um pouco com o destino deles.

– Que pereçam! – gritou Sylvana. – Estou farta deles!

Annhylde ergueu a mão para calar sua irmã de armas mais nova: – Quieta, Ágata. Ela não sabe. Ela precisa ver mais. – A líder Val'kyr dirigiu os luminosos olhos verdes para Sylvana, olhos margeados de tristeza. – Sylvana Correventos, o esquecimento que você busca é seu. Nós não vamos detê-la.

Os olhos de Annhylde se fecharam, e imediatamente as criaturas se transformaram em formas espectrais sem rosto.

Então Sylvana sentiu que estava sendo puxada para longe, que seus sentidos estavam vacilantes. Tudo desapareceu, e o tempo parou.

– Ela está perdida! – lamuriou-se Ágata.

Guilnéas

A chuva continuava, inexorável, e transformara o terreno em torno da muralha de Guilnéas em um pântano. Garrosh passava em revista as tropas renegadas montado em seu lobo de guerra, que afundava as patas na lama. A água da chuva escorria pelo rosto do chefe guerreiro, e vapor emanava-lhe da cabeça raspada.

– Guilnéas se acovarda detrás daquelas paredes de pedra – bradou o Chefe Guerreiro, cuja voz ressoou por entre as trovoadas. – Vocês, cidadãos de Lordaeron, vocês conhecem a história dos guilneanos. Quando os aliados humanos precisaram deles, o que eles fizeram? Ergueram uma muralha e se esconderam!

O ruído de espadas batendo contra escudos ecoou. Nem todos os Renegados se apegavam às lembranças da vida, mas aqueles que o faziam detestavam o reino que havia se negado a ajudar. Garrosh continuou, com a voz tão altiva quanto sua cabeça erguida:

– Eles vivem em desonra. Como vocês esperam que eles lutarão? Com honra? – Risos guturais espalharam-se pela multidão. – Não! Eles morrerão como covardes e assim serão lembrados. Mas a glória de vocês hoje viverá nas histórias e nas canções. – Garrosh virou-se para a muralha rompida e ergueu o Uivo Sangrento, lendário machado do chefe guerreiro, na direção do bastião destruído. – Muralhas caem, mas a honra é eterna!

O mestre-boticário Lindolfo passou a mão esquelética pelo cabelo emaranhado. Os urros de orcs, taurens e Renegados encobriram os trovões. "Como é que ele consegue?", perguntou-se Lindolfo. "Meu irmãos saúdam a própria destruição!"

Lindolfo tentou desesperadamente formular um argumento, um último apelo à sensatez contra o plano de Garrosh. Tentou imaginar o que a Dama Sombria diria, como ela sufocaria tal sede de sangue. Abriu a boca, mas não disse palavra.

Um ruído retumbou ao longe, na retaguarda dos Renegados. Garrosh disparou com o lobo de guerra para a lateral da formação, abrindo caminho para o ataque, e convocou:

– Heróis dos Renegados! Vocês são a ponta da minha lança. Ergam suas armas! Levantem suas vozes! E só parem quando a bandeira da Horda tremular sobre aquela muralha! – Garrosh brandiu o Uivo Sangrento à frente. – Atacaaaaar!

– NÃO ESCUTEM TAL ORDEM! – Do norte, um grito se dirigiu às tropas. O chamado de Sylvana carregava tamanho poder e tamanha pureza que mesmo a chuva pareceu parar ao comando da Rainha Banshee. Relâmpagos rasgaram os céus, e trovões retumbaram como martelos contra uma bigorna. Todas as cabeças se voltaram para ela, a Dama Sombria montada sobre um cavalo descarnado, o manto negro agitando-se com a fúria do ataque e os olhos cobertos por um capuz que refletia luz na água da chuva. Diante daquela aparição, os Renegados baixaram as armas, curvaram as cabeças e ajoelharam-se.

Lindolfo não caiu de joelhos, embora suas pernas tenham fraquejado ante a visão da redentora dos Renegados. Com as vestes arrastando-se na lama, o mestre-boticário seguiu aos tropeços até Sylvana para tomar as rédeas do corcel e sussurrou, arfando de alívio: – Dama Sombria!

Logo em seguida, Lindolfo deteve-se de espanto ao ver criaturas luzentes de asas translúcidas: Sylvana estava acompanhada das abomináveis Val'kyren!

Garrosh aproximou-se da Dama Sombria com os olhos refletindo a sede de sangue. Aos pés do Chefe Guerreiro, milhares de Renegados ajoelhados em silêncio pareciam um mar de estátuas. Lindolfo encolheu-se instintivamente.

No entanto, Sylvana não hesitou, tampouco retirou o capuz em sinal de respeito. Apenas ergueu o queixo, num gesto muito sutil. A dama Sombria dirigiu-se a Garrosh, mas em volume alto o suficiente para que todos ouvissem:

– Grito Infernal, Guilnéas será derrotada. E a Horda terá o tão desejado prêmio. Mas se você quiser usar o meu povo, terá que fazê-lo do meu jeito. – Sylvana jogou o manto sobre um ombro só, exibindo a pele manchada em tons de cinza e a armadura de couro negro enfeitada com penas. – Três dos meus navios mais rápidos então a caminho da costa sul para desviar a atenção de Guilnéas, e reforços estão vindo de Plangemortis.

Lindolfo ergueu a cabeça ao ouvir aquele comentário cifrado. Até onde sabia, além do cemitério, nada havia restado em Plangemortis.

O mais intrigante, na verdade, era a mudança no comportamento de Sylvana. A voz da soberana, sempre assustadora, agora soava muito mais contundente, como se falasse com a objetividade dos deuses. E o que eram aquelas Val'kyren flutuando em silêncio em torno da dama Sombria?

– Grande Dama – sussurrou Lindolfo. – Por onde andou?

Sylvana olhou para o servo, que recuou com as mãos trêmulas, deixando cair as rédeas do corcel espectral.

Trevas

Sylvana Correventos permaneceu em queda livre. Não no sentido físico, pois o corpo da Dama Sombria fora destruído no sopé da Cidadela da Coroa de Gelo. Seu espírito, no entanto, caía, perdido como um navio sem leme numa tempestade.

Como ela havia chegado ali? Não se lembrava. Arthas a matara? Ela cometera suicídio? Fora mandada ao juízo pelas Val'kyren? O tempo não existia naquele lugar. A vida inteira pareceu-lhe não como uma sequência de acontecimentos, mas como um único instante, um vislumbre localizado de consciência em um vazio infinito.

Só enxergava trevas.

E então sentiu. Sentiu verdadeiramente, pela primeira vez em muito tempo. E se encolheu. Em dor.

Ali estava ela, com o espírito mais uma vez inteiro, apenas para senti-lo sofrer. Recobrar os sentimentos apenas para viver dor. Frio. Desesperança.

Medo.

Havia outros na escuridão. Criaturas que não reconhecia, pois nada tão terrível poderia existir no mundo dos vivos. Garras a rasgaram, mas Sylvana não tinha uma boca com que gritar. Olhos a observavam, mas ela não podia encará-los de volta.

Remorso.

Sentiu uma presença familiar, e reconheceu-a. Uma voz provocadora que outrora a controlava. Arthas? Arthas Menethil? Ali? A essência dele correu desesperadamente até Sylvana, para então recuar horrorizada ao ver que ali estava a Dama Sombria. O garoto que se tornaria o Lich Rei. Uma mera criança loira que colhia o resultado de uma vida inteira de erros. Se, naquele momento, a alma da Dama Sombria não estivesse tão atormentada e destroçada, poderia até mesmo, pela primeira vez, ter sentido uma ínfima centelha de pena de Arthas.

Em meio ao imenso universo de todo o sofrimento do mundo e todo o mal do infinito, o Lich Rei era... insignificante.

Então os outros a tinham. Cercaram-na. Exultantes, atormentadores, rasgando-lhe a consciência, deliciando-se com o sofrimento.

Terror.

Aquela seria a eternidade: o vazio infinito, o sombrio e desconhecido reino da angústia.

Teria se passado apenas um momento ou numa vida inteira, antes que um raio de luz irrompesse na escuridão? Pois, logo em seguida, elas se aproximaram de braços abertos. As nove Val'kyren, parecendo ainda mais belas em meio àquele domínio das trevas, envolveram Sylvana em uma auréola de luz.

A Dama Sombria sentiu-se nua e pequena. Enrodilhada em si mesma. Ao recobrar a voz, apenas soluçou. Sylvana Correventos estava arrasada. Ainda assim, as Val'kyren não a julgaram.

– Grande Dama Correventos – disse Annhylde com a voz apaziguadora, acariciando o rosto da elfa patrulheira. – Precisamos de você.

– O que... O que vocês querem?

– Estamos presas à vontade do adormecido Lich Rei. Prisioneiras na Coroa de Gelo, talvez por toda a eternidade. Ansiamos pela liberdade, como você também um dia. – Annhylde ajoelhou-se ao lado de Sylvana, e as demais juntaram-se às duas com os braços entrelaçados. – Precisamos de um instrumento. Alguém como nós. Uma irmã de armas, forte, que compreende o viver e a morrer. Que viu a luz e as trevas. Alguém merecedor, merecedor do poder sobre a vida e a morte.

– Nós precisamos de você – repetiu Ágata, cujo cabelo negro flutuava livremente na luz.

– Minhas irmãs ficarão livres, livres do Lich Rei para sempre, mas suas almas ficarão ligadas a você – retomou Annhylde. – Sylvana Correventos, Dama Sombria, Rainha dos Renegados... Você poderá caminhar entre os vivos novamente por meio da irmandade das Val'kyren. Enquanto elas existirem, também você viverá. Liberdade, vida... e poder sobre a morte. Este é o pacto. Você aceita esta dádiva?

Sylvana respondeu, mas não de imediato. O vazio deixara-a aterrorizada. Mesmo agora, ela ainda sentia a fúria de tormentos à sua volta. Aquela proposta era a única saída. Mas Sylvana não queria concordar movida a medo. Aguardou até que sentisse algo mais. Companheirismo. Irmandade. Irmãs. Separadas, estavam todas aprisionadas. Juntas, no entanto, estavam livres... e, com elas, poderia adiar o destino.

– Sim – afirmou Sylvana. – Nós temos um pacto.

Annhylde assentiu de cabeça com a expressão severa, e então levantou-se. Sua silhueta estava obscura e fantasmagórica: – O pacto foi feito, Sylvana Correventos. Minhas irmãs são suas, e você governa a vida e a morte. – A Val'kyr hesitou um instante e continuou. – E eu tomarei o seu lugar.

A luz foi ofuscante.

Em seguida, Sylvana despertou com o corpo torcido, mas inteiro. Acima dela, a enorme coluna da Coroa de Gelo se erguia como uma lápide.

Annhylde havia desaparecido. Sylvana estava cercada pelas oito Val'kyren remanescentes.

Enquanto elas vivessem, Sylvana também viveria.

Guilnéas

– Quem é você para contestar minhas ordens? – questionou Garrosh, esporeando o lobo de guerra para a frente. O enorme orc avançou sobre Sylvana, postando-se frente a frente e encarando-a, enfurecido.

– Eu era como você, Garrosh – respondeu Sylvana, sem se mover nem recuar, com a voz firme e baixa, para que apenas o Chefe Guerreiro a ouvisse. – Meus lacaios eram meras ferramentas. Flechas na minha aljava. – A Dama Sombria aproximou-se, retirou o capuz lentamente e encarou o rival com os olhos de azeviche vívidos e pupilas enormes que escondiam labaredas vermelhas e refletiam ódio.

Até então, ninguém havia ousado encará-la nos olhos. Ninguém, além de Garrosh Grito Infernal.

O Chefe Guerreiro viu neles um grande vazio negro, uma escuridão sem fim. Havia medo naqueles olhos, mas também algo mais. Algo que horrorizou até mesmo o poderoso orc. O lobo de guerra começou a recuar instintivamente.

– Garrosh Grito Infernal, eu caminhei pelo reino da morte. Testemunhei a treva infinita. Nada que você disser, nada que fizer, pode me assustar.

O exército de mortos-vivos que protegia a Dama Sombria ainda lhe era leal, de corpo e alma. Mas eles não eram mais flechas na aljava. Eram um baluarte contra o infinito. Deveriam ser tratados com sabedoria. Nenhum orc tolo tiraria proveito daquele exército levianamente enquanto ela caminhasse pelo mundo dos vivos.

Garrosh baixou o machado, enquanto o lobo de guerra afastava-se, assustado, do corcel espectral. Após um longo instante, o Chefe Guerreiro por fim desviou o olhar de Sylvana.

– Pois bem, Dama Sombria – anuiu Garrosh, alto o suficiente para que todos ouvissem. – Tomaremos Guilnéas... do seu jeito.

Garrosh cravou as esporas na montaria e trotou em direção às tropas órquicas. "Mas vou vigiar você de perto", disse a si mesmo.

"Os olhos do Grito Infernal estão sobre você, mais do que quaisquer outros."